quarta-feira, 5 de maio de 2010

TVZPIII

- Nós temos um caso. (...)

- Não, não temos.

- Nós temos um caso.

- Mas qual é exatamente a idéia que você tem de um caso? (...) Eu nunca te beijei, não trocamos confidências ou carícias. Nunca me passou pela cabeça ter algo de realmente concreto com você.

- Eu tive um sonho, sabe? Nele, você tentava me beijar, tentava forçar a barra, mas aí eu dizia que não! Que você saísse de perto de mim e que nunca mais olhasse na minha cara, porque eu estava com nojo de você.

- Mas é um sonho... Não é real.

- Você sabe que é real.

- Você teve um sonho onde eu tentei te beijar e realmente está levando isso em conta?

- Eu quero saber o que você pensa

- Isso não vem ao caso.

- O caso é que nós temos um caso.

- Você está confundindo tudo.

- Eu nunca estive tão certa de uma coisa na minha vida.

- E onde estão seus argumentos?

- Eu fiz uma lista deles, porque eu já esperava uma pergunta cretina dessas, vindo de você.

- Sete páginas?

- Me faz parecer importante. (...) E séria! E eu fico mais segura de mim, mas isso é só uma estratégia pessoal.

- E revelar sua estratégia também faz parte da sua estratégia?

- Arram.

- Ahn?

- Pera... número três: nós temos um caso porque te atrai o fato de eu ser atrapalhada e sempre acabar falando muito mais do que deveria; o que cria uma conectividade entre nós, sendo você inteligente barra sarcástico barra arrogante, e sentindo-se sempre no dever de me corrigir ou de estar me ajudando.

- Chega!

- Tá bom.

- Nós não temos um caso.

- Segundo o item vinte e dois, o fato de você negar que...

- Eu disse CHEGA! (...) Você não me respondeu...

- Você não me...

- Perguntei. Perguntei sim. Qual é a idéia exata que você tem de um caso?

- É isso que está no seu olhar, nesse momento e você sabe. Eu sinto algo diferente por você e você sente esse mesmo algo por mim, e por mais que não expressemos isso fisicamente, é como se tivéssemos um segredo. É como se compartilhássemos sozinhos de algo. E você não consegue falar que está comigo, ao telefone.

- Isso não constitui um caso.

- Soa como um caso.

- O fato de eu não dizer que estou com você, ao telefone, significa apenas que eu não quero delongar a conversa com mais perguntas e relatórios.

- O fato de você sempre estar dando satisfações pra mim, que não tenho ligação aparente com você não constitui um caso?

- (...)

- Caso encerrado. Vencido pelo item nove da listinha.
***
Caso
s.m. O que acontece, ou pode acontecer. / Circunstância, conjuntura. / Ocorrência. / Aventura amorosa. / Conto, história. // Dar-se o caso, acontecer alguma coisa. // Vir ao caso, ser a propósito. // De caso pensado, premeditadamente. // Em todo (qualquer) caso, seja como for. // Caso de consciência, dúvida de procedimento. // Fazer caso de, dar importância. / &151; Conj. Se, no caso de.

terça-feira, 27 de abril de 2010

ouça

Foi aí que Anadele parou o caminhão enfurecido com uma só mão. Mas seus olhos não estavam ali, eu poderia afirmar, sua perspectiva de olhar tinha ido parar em another galaxy. Quando estava de volta, sentiu a lataria amassada por entre seu braço esquerdo e tentou se desencaixar com cuidado, para que não se machucasse. Olhou em sua volta e percebeu a multidão a fitar o acontecido e procurar possíveis explicações lógicas, mas a própria garota demoraria a entender o que havia ocorrido. Percebendo a maciez do pequeno animal encolhido em seu braço direito, começou a reconstituir os passos em sua cabeça, tentou retirar-se à francesa do local, como faria costumeiramente, mas dessa vez havia algo diferente. Não havia um só olhar em toda a rua que não estivesse voltado para o corpo esguio e branquelo de Anadele. Ruborizou. Saiu correndo, antes que qualquer voz compadecida ou inquisidora se manifestasse, e nem o berro do motorista a pôde parar.

Talvez nunca houvesse corrido, pensou. E parou de súbito, depois de correr cinco minutos, sem pensar em nada além da própria vergonha e do fato de querer enfiar sua cara em meio às cobertas e não aparecer nunca mais, NUNCA MAIS. Arfou. (...) Se pudesse, teria corrido mais, mas a falta de fôlego não a deixaria. O rosto em brasa, respirou fundo e olhou para o gato mais uma vez. E por um momento, achou que o bichano debochasse dela. colocou-o delicadamente do chão, e ele saiu posudo, de rabo levantado. O escroto certamente não teria sido atropelado, certamente que não. Era tudo mais uma armação do destino pra fazer a boboca da Anadele se expor ao ridículo. Anadele caminha cautelosamente até um banco meio sujo, onde senta-se e começa a sentir-se chateada...

(talvez um pouco mais que chateada)

e passa a sentir uma certa raiva

(talvez um pouco mais que raiva)

E é essa a hora que a magricela entra em fúria.
(e aqui vale uma pequena explicação)
De modo que a fúria de pessoas como ela resume-se a um sentimento contido ao extremo, algo tão nocivo que se você chegasse perto e tivesse como tocá-la, talvez levasse um pequeno choque, Anadele não conseguiria expressar. Colocar esse demônio para fora seria como soltar um ruidoso arroto numa mesa de grã-finos e ela simplesmente não sabe arrotar.
(fim da explicação)

Tentou dar um jeito no próprio cabelo e começou a descascar a pintura gasta do banco - estava possessa - a perna esquerda em movimento repetitivo e seus olhos piscando, embasbacada, como se não prestasse atenção às coisas ao redor. Dentro da sua cabeça, o barulho de uma chaleira em ebulição. Não sabia direito com o que estava revoltada, mas o ódio era certo. E desejou dar perda total em mais dez caminhões.

Ouça

Ouça os sons que Anadele faz enquanto sente que poderia estraçalhar um bloco de concreto maciço. Seus longos cabelos castanhos presos em um nó enquanto ela percebe que todo o poder possível agora paira em suas mãos. Ouça... Apenas ouça... Tentou não pressionar o chão tão fortemente com os pés, mas foi inevitável.

Do outro lado da rua, um hidrante voa pelos ares e um jeizer magnífico se forma, e faz Anadele sentir-se estranhamente confortável. Gatos não gostam de banho, pensou. Viu a pequena figura encharcada encarando-a e pôde enfim sorrir.

domingo, 18 de abril de 2010

TVZP0

(encontrei um dos protótipos do TVZP, e enfim, não importa se é exposição demais da minha parte ou se vocês vão ou não gostar, eu vou postá-lo por aqui. Tirem suas próprias conclusões. O texto foi escrito em junho de 2008. é protótipo mesmo, e como tal, pode parecer cansativo, chato, mal-feito e repetitivo)

Sem tempo para mais explicações. Meus dias se resumem a um ir e vir de pensamentos fragmentados. Eu queria ter uma coisa só em minha vida que não fosse fundamentada nessa mentira. Eu não gosto de viver. Acho que é coisa demais de uma vez só e que nenhuma pessoa em estado normal de consciência consegue agüentar sem acabar tendo um ataque de nervos. Eu sou meu próprio ponto fraco.



***



-Qual o nome que se dá para a sensação que a gente tem quando percebe que todas as outras coisas estão girando rápido demais e estamos prestes a nos desligar de tudo isso?

-Não sei.

-Não sabe?

-Vazio, talvez.

-Não, não é vazio. Acho que não existe uma palavra pra isso.

-Talvez não exista mesmo.

-Eu realmente queria entender. Mas outro dia quando eu olhei pro espelho, eu tentei fugir de minha própria visão. É triste, sabe? Quando você olha pro espelho e percebe que o espelho também olha pra você. É como...

-Vazio?

-Não. Não é essa a palavra.

-Existe? A palavra?

-Existe.

-...

-Daí quando eu percebo que estou sendo sério demais e sensato demais comigo mesmo, vou na primeira esquina e tomo uma, duas doses de cachaça, pra poder fingir que não estou consciente de todo e continuar me iludindo que isto tudo não existe e que essa droga toda vai passar. Mas não é assim. As coisas, a vida, nada. Não é assim.

-Eu não gosto de te ver assim.

-Verdade.

-O que?

-Verdade. A palavra? Esqueceu?

-...

-Quando eu olho nos meus olhos dentro do vidro e baixo a vista, é isso que eu não gosto de ver. Verdade.

-Gosto de você.

-...

-Que foi?

-Você não precisava ter dito isso.

-Mas eu disse. Eu queria.

-Preciso de...

-Porque você não me escuta?

-Fluoxetina!

-Não! Não... Outro não.

-PORRA! Porque você sempre tem que complicar tudo?

-Você não pode ficar se drogando.

-Não é da droga do remédio que eu to falando!

-...

-Você não precisa gostar de mim... É sério, sério mesmo.

-Você não vai morrer. Sabe que não. São só seis meses. Não é a morte

-Mas vai ser bastante parecido.

segunda-feira, 29 de março de 2010

TVZPII

- Que estranho...

- Quê?

- Qual é o nome que se dá pr'aquela sensação que a gente tem quando ocorre uma coisa que se tem certeza que já aconteceu só que não sabe dizer quando e como foi?

- Déjà vu.

- Já viu o que?

- Não, Carla. A expressão... O nome que se dá pra isso é déjà vu.

- Ah, é mesmo... É francês, né?

- É... É, sim

- Acabei de ter um.

- Um déjà vu?

- É. Esse negócio aí, a capital da Islândia...

- Hum.

- A pessoa se sente perdida, como se estivesse estranhando a si própria. Lá está você de novo tendo que gravar a mesma cena de tempos atrás e tem uma projeção em cima de tudo. Uma espécie de película turva cobrindo cada coisinha da situação. Parece até que tem um script prá nossa vida e que na hora de imprimir, repetiram algumas páginas, por engano. (...) Não é estranho, Felipe? você já se sentiu assim?

- Assim como?

- Como se sua vida fosse um filme e você tivesse atuando sem saber?

- Nunca parei pra pensar.

- Você nunca me responde direito.

- Que?

- Sempre é assim, você fala o mínimo possível, que é pra eu não poder me aprofundar em você.

- Não é minha culpa. (...) Eu não sei ser de outro jeito.

- Taí. De novo.

- De novo, o que?

- Benjamim.

- Ahn?

- A capital da Islândia. O negócio, lá, dos franceses...

- Déjà vu?

- É. De novo. Sabe, ultimamente eu tenho tido muitos. Mas, tipo, muitos mesmo. De um jeito que parece mesmo que não há nada de novo acontecendo. E tudo entra em perspectiva muito facilmente porque eu realmente sei o que vai acontecer e onde tudo vai parar. Eu já paguei essa matéria e já representei esse papel antes (...) Tem certeza que nunca se sentiu assim?

- Eu fui o Romeu duas vezes. Mas uma foi no jardim de infância, então eu acho que nem conta, né?

- Não era disso que eu estava falando

- Era sim.

- Não desse jeito.

- Não sei corresponder às suas expectativas. (...) Sério.

(risos)

- Daí eu me peguei pensando esses dias se essa coisa do Benjamim ia acontecendo com freqüência maior à medida que a gente ia envelhecendo. Afinal, faz todo sentido que seja assim, já que, como as coisas vão sendo vividas, sobram poucas situações inéditas pra acontecer. Já pensou? Daí quando a gente fosse bem velho não ia conseguir passar um dia sequer sem sentir esse negócio. Será que é mesmo assim, Felipe?

- Não sei. Nunca fui mais velho do que agora. Mas vou procurar averiguar.

- Gosto de você.

- Porque?

- Você me escuta, me dá atenção, me diz as coisas na cara.

- Isso é bem verdade.

- E você?

- E eu, o que?

- Não tem nada pra dizer?

- Na verdade tenho...

- Fala.

- A capital da Islândia não é déjà vu e sim Reykjavík.

***

AGRADECIMENTO EM LETRAS GARRAFAIS AO GEMINIANO ÉVERTON COM ACENTO AGUDO NO PRIMEIRO "E". FONTE DE DIVERSOS DÉJÀ VUS E RESPOSTAS INSPIRADORAS. :D

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

quatro de espadas


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

desgaste de cores


sábado, 16 de janeiro de 2010

pills


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